Produtora responsável por filme “Dark Horse” nunca lançou obra, diz Ancine
Go Up Entertainment responde por orçamento de R$ 130 milhões em superprodução; empresa é alvo de apuração sobre emendas federais
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A Agência Nacional do Cinema confirmou que a produtora Go Up Entertainment Ltda, responsável pela cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro intitulada Dark Horse, não possui registros de filmes lançados comercialmente no Brasil ou no exterior. A empresa, sediada na Avenida Paulista, em São Paulo, foi constituída em dezembro de 2021 com capital social de R$ 100 mil e figura como a principal realizadora jurídica do projeto internacional.
A ausência de histórico técnico na agência reguladora coloca sob escrutínio a capacidade operacional da empresa para gerir um orçamento estimado em mais de R$ 130 milhões. O parecer técnico da Ancine acendeu alertas em órgãos de controle financeiro e no Sindicato dos Trabalhadores na Indústria do Audiovisual (Sindcine), que apontam irregularidades administrativas e riscos trabalhistas graves na condução de uma obra que mobiliza fundos de grande escala.
Origem da produtora e do projeto
A Go Up Entertainment Ltda foi fundada em 1º de dezembro de 2021 sob o controle societário exclusivo da jornalista e empresária Karina Ferreira da Gama Bernassi. A proprietária mantinha atuação prévia voltada a projetos culturais de pequeno porte, assessorias políticas e articulações institucionais junto a parlamentares conservadores na capital paulista, antes de ingressar no mercado de grandes produções de estúdio cinematográfico.
O projeto do filme Dark Horse foi anunciado posteriormente como uma superprodução internacional de viés ideológico de direita, escalando o ator norte-americano Jim Caviezel e os diretores Cyrus e Mark Nowrasteh. O roteiro da obra, que retrata a trajetória política de Bolsonaro e sua posterior condenação judicial, contou com a colaboração direta do deputado federal Mario Frias (PL-SP), aliado próximo da família do ex-mandatário.
Irregularidades e repasses sob suspeita
Os dados cadastrais da Ancine apontam que, apesar de a Go Up possuir a atividade principal voltada a estúdios cinematográficos, o processo regulatório para as filmagens no Brasil recebeu classificação de "informação inexistente". A autarquia informou que os ritos de notificação e apuração normativa estão ativos porque a produtora não apresentou as contratações formais e os registros obrigatórios que validam a execução de filmagens comerciais em território nacional.
Paralelamente ao entrave técnico, a estrutura financeira da produção tornou-se alvo de investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. O inquérito apura o fluxo financeiro de emendas parlamentares direcionadas a entidades geridas por Karina Bernassi, incluindo o Instituto Conhecer Brasil, que assinou contratos de R$ 108 milhões com a prefeitura de São Paulo para instalação de redes de conectividade Wi-Fi pública.
Os investigadores suspeitam que recursos oriundos dessas contratações públicas e de emendas tenham sido triangulados para subsidiar os custos operacionais da cinebiografia sem a devida transparência fiscal. Auditorias preliminares do Tribunal de Contas constataram divergências significativas nos valores praticados por ponto de acesso instalado pelo instituto, cujos custos superaram em até sete vezes as cotações médias de mercado das estatais de tecnologia.
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A engenharia financeira da produção também envolve o patrocínio privado de Daniel Vorcaro, banqueiro e proprietário do Banco Master, instituição que expandiu suas operações no mercado nacional. Áudios interceptados com autorização judicial revelaram tratativas diretas entre o empresário, parlamentares e os filhos do ex-presidente, Flávio e Eduardo Bolsonaro, para a garantia de aportes privados que somam R$ 134 milhões destinados à execução do filme.
Posicionamento dos envolvidos
O deputado federal Lindbergh Farias (PT-RJ) protocolou representação formal exigindo a suspensão preventiva de repasses de emendas e auditoria integral nas contas das empresas ligadas à produção. O parlamentar afirmou que a falta de portfólio da produtora, somada ao volume de dinheiro público sob suspeita de desvio, exige rigor máximo de fiscalização e aplicação imediata de penalidades administrativas por parte da Ancine.
Em nota oficial distribuída à imprensa, a empresária Karina Ferreira da Gama Bernassi negou categoricamente a existência de qualquer irregularidade fiscal ou o uso de dinheiro público na produção do longa-metragem. A proprietária da Go Up declarou que todos os projetos sociais do instituto foram rigorosamente executados conforme a legislação e justificou a falta de histórico regulatório com o caráter inédito da parceria internacional privada.
Riscos regulatórios e comerciais
O avanço das investigações criminais e técnicas tende a resultar no bloqueio de bens dos envolvidos e na aplicação de multas regulatórias que alcançam o teto de R$ 100 mil por infração na Ancine. Especialistas em direito audiovisual apontam que a classificação de irregularidade nas filmagens impede a emissão do Certificado de Produto Brasileiro (CPB), inviabilizando a exibição comercial da obra em salas de cinema do país.
O escândalo financeiro gera reflexos reputacionais que comprometem os contratos firmados com os profissionais de Hollywood e distribuidores estrangeiros associados ao projeto de Dark Horse. O congelamento de contas e o monitoramento de transações financeiras do Banco Master pelos órgãos de controle federal criam barreiras cambiais que desestruturam o fluxo de pagamentos internacionais necessários para a finalização técnica do filme no exterior.
A Ancine estipulou o prazo regulamentar de quinze dias úteis para que a diretoria da Go Up Entertainment apresente a defesa prévia e exiba a documentação trabalhista exigida pelo sindicato. O plenário do Tribunal de Contas da União deve julgar a regularidade dos contratos de conectividade da prefeitura paulistana no próximo mês, definindo se haverá a retenção definitiva dos ativos financeiros vinculados ao grupo.